UM BEIRADEIRO NO CINEMA “MUDERNO”
Na última terça-feira fui com a minha cara metade ao cinema, no
novíssimo Shopping Riomar de Fortaleza. Subimos até o 4º andar e nos dirigimos
diretamente à bilheteria do tal Cinépolis. Minha mulher havia escolhido
assistir o filme “O Insurgente”, na modalidade 4DX. Eu, anjo de todo, fui logo
me assustando com o preço: R$ 55,00 a inteira e R$ 27,50 a meia. Como já estou
passado na idade paguei meia entrada e a minha mulher a inteira. E ainda fiquei
todo convencido, quando o bilheteiro me exigiu a apresentação da identidade,
pois não acreditara que eu já estava na pior idade. E lá se foram R$ 82,50 da
minha minguada carteira. Uma rápida passada na pipoca e no copão de coca e
programa consumiu suados R$ 100,00. Como a sessão já começara, corremos para a
sala indicada, deixando um rastro de pipoca pelo chão. Recebemos óculos
próprios para filmes 3D. Adentramos (à moda delegado de polícia) à sala de
cinema e procuramos os locais marcados em nossos bilhetes. As poltronas eram
maravilhosas. Um conforto só. Logo a sessão começou. Senti um pequeno solavanco
na minha poltrona e julguei ser um chute casual do espectador que estava atrás
de mim. O filme já começava e mais um solavanco, desta vez mais forte. Já ia me
aborrecer com o espectador amaldiçoado, quando senti a poltrona balançar.
Perguntei à minha mulher se ela sentira algo parecido na sua. Ela aquiesceu, de
pronto. E começaram mais solavancos e solavancos. Perdoei o expectador
traseiro. O protagonista corria, descendo um morro e a cadeira se inclinava,
quase me jogando ao chão. Procurei pelo cinto de segurança e nadica de nadica.
O filme era de ação. Muita ação. E a poltrona acompanhava cada movimento da
película (é o novo!), balançando, pulando e saracoteando a valer. Em dado
momento me senti no mar de Caravelas, a bordo daqueles barquinhos de pesca de
camarão, com o vento sul a estibordo. Numa cena de bombardeio a sala de
projeção (é o novo, de novo!) se encheu de fumaça, dando vida à cena. E ainda
tinha cheiro de queimado. Tudo isso potencializado pelo efeito do 3D. Só que eu
não sabia que estava num 4D. Aliás, um 4DX. Nas cenas de bombardeios ou de
temporais com raios e trovões, luzes se acendiam nas laterais da sala. Tudo tão
real que esperei pelo aguaceiro que felizmente não veio. De repente, num
tiroteio danado, com os mocinhos (é o novo, mais uma vez!) fugindo de uma
saraivada de balas, a poltrona liberou jatos de ar comprimido, raspando e
sibilando no meu escutador de novela. Por sorte não fui atingido. Enfiaram
plugues nas costas da mocinha, para pendurá-la fixada por cabos ligados ao
computador malévolo e a poltrona ficou me cutucando as costas, como se também
os tivessem plugando em mim. E tome solavancos, o filme todo. Quando terminou,
não fosse eu um velho lobo do mar, estaria certamente mareadinho da silva. Mas
fiquei muito atento a alguma cena de amor explícito que, porventura, estivesse
contida no filme. Vai que a dama resolve tomar no toba e a cadeira também
resolve simular? Fiquei de butuca, prontinho para pular fora da poltrona, se
isso acontecesse. De espectador virei expectador mesmo, na expectativa de poder
ser enrabado por aquela cadeira do cão. Essa “mudernidade” assusta mesmo!
O encontro
das dez mais
Nas férias de janeiro o tio Hildenízio
veio de Belo Horizonte, com as três filhas, para passar férias em Fortaleza e
rever a família. Logo a ala feminina da primarada se agitou e criaram um clube
da Luluzinha, programando um encontro só delas que teria como sede o sítio
Shan-gri-lá, da tia Zelinda, na serra de Maranguape. Organizaram tudo e ficaram
à espera da aprovação e autorização dos pais, para empreender tal aventura.
Esses pais, apreensivos e titubeantes, cientes de seu papel de guardiões daqueles
cabaços ainda intactos e reluzentes, confabularam entre si e acabaram cedendo,
concordando em deixar aquele muilheril desvairado, sozinhas naquele paraíso.
Mas não sem antes de desfiarem um rosário mil recomendações. Convencionou-se
chamar a trupe de participantes do passeio de “As 10 mais”, pois eram dez as
participantes: Dil, Zoraidinha, Vanda, Gláucia, Ruth, Naná, Têca, Hilnete e as
anfitriãs Neile e Lena. Apesar de ser um evento estritamente feminino as
meninas chamaram a mim e ao Betão para desfrutarmos, por um dia inteiro, um
pouquinho daquele fandango familiar. Isso sem que os pais soubessem. No
dia aprazado seguimos os dois para Maranguape, no primeiro ônibus da manhã.
Descemos na rodoviária e galgamos rapidamente os três quilômetros de ladeiras,
até a sede do sítio, mesmo com as deficiências de locomoção do Betão. O vigor
da idade ajudava, e muito! Passamos um dia maravilhoso com as primas e irmãs
queridas, com banhos de piscina, passeios, trilhas no rio, jogos e muita
conversa fiada. Tudo dentro das mais rigorosas regras de comportamento e bons
costumes que imperavam naqueles tempos. No final da tarde, como previsto, nos
despedimos e descemos ladeira abaixo, rumo à rodoviária da cidade, para
empreendermos a viagem de volta à Fortaleza. Ocorre que, naquele ano, já estava
em prática o horário de verão, em que os relógios eram adiantados em uma hora.
Como não tínhamos relógio nos baseamos no horário do sol para descer a serra e
tomar o ônibus de volta. Quando chegamos à rodoviária, julgando ainda serem
quatro e meia da tarde, a tempo do último ônibus que sairia às dezessete horas
tomamos um enorme susto. O ônibus já estava a meio caminho de Fortaleza, posto
que, pelo horário oficial de verão, já eram dezessete e trinta. Sem ter como
voltar para casa, o único jeito foi retornar ao Shan-gri-lá para o pernoite. E
lá fomos nós subindo novamente, a pé, o íngreme daquelas ladeiras. Como as
meninas haviam nos contado que costumavam tomar o último banho de piscina do
dia em trajes menores, aproveitando o lusco-fusco do entardecer, tivemos a
preocupação de subir as escadas de acesso ao sítio batendo palmas e assoviando,
para dar-lhes tempo de recompor a decência, se fosse o caso. Até com isso nos
preocupamos. A Neile que era a comandante-em-chefe do grupamento achou que os
nossos pais ficariam preocupados, caso não chegássemos naquele dia, como
previsto. E resolveu que deveria avisá-los do nosso pernoite. Depois do jantar
descemos todos juntos as ladeiras da serra, até um sítio mais abaixo para dar o
telefonema de comunicação do nosso pernoite. Não sei se a Neile estava
preocupada com os nossos pais ou com os pais dela. Tanto lá em casa, na
longínqua Querência, como na casa do Betão não havia telefone. Então a
comunicação foi feita para a casa da tia Zelinda. Pelo que nos contaram,
o telefonema produziu um verdadeiro pandemônio no seio da família Torres,
sediada no Joaquim Távora. Convocaram uma reunião de emergência, com a
participação de Firmino, Zelinda, Hildenízio, Terezinha e Geórgia Maria que
morava na casa do Vozinho, naquela época. O assunto era gravíssimo, pois dez
cabaços corriam sérios riscos de serem arrancados naquele pernoite de dois
garanhões insaciáveis, bem no meio daquele plantel de potrancas, prontas para o
cobri-las e enxertá-las. Imaginavam que, a essa altura, o ritual do
acasalamento estava em adiantado desenvolvimento. Não sei se algum deles
ponderou que se tratava apenas de primos inocentes e que irmãs deles integravam
o grupo. Hilnete da parte do Betão e Gláucia e Ruth de minha parte. Também não
sei se chegaram a cogitar a hipótese de empreender o salvamento das virgens
naquela noite mesmo. O fato é que decidiram correr o risco e dormiram
apreensivos naquela noite. Se é que dormiram. Os gritinhos de dor e de prazer
das noviças fustigavam-lhes os sonhos. Mas o fato de não terem ido resgatar as
donzelas naquela noite prova que a preocupação havia, mas não tanto assim.
Disseram as más línguas que a Geórgia Maria que não tinha nenhum cabaço a
zelar, exceto os das suas irmãs, foi uma das mais contundes participantes
da reunião. O fato é que a intenção da Neile saiu pela culatra, pois nem o povo
do Betão e nem o pessoal da Querência foi avisado do pernoite. Alheios ao que
se passava em Fortaleza, curtimos uma noite de mais papos e brincadeiras. Na hora
de dormir, optamos, eu e o Betão, em pernoitar na varanda da casa, apesar dos
protestos das meninas. Arranjaram duas redes e nós ficamos ali encolhidos no
friozinho da madrugada serrana. Parece até que adivinhávamos o que estava por
vir. Na manhã seguinte, todos os hímens continuavam íntegros, mesmo os
complacentes. Logo cedo, descemos novamente a serra para tomar o coletivo de
retorno a Fortaleza. A Hilnete e a Naná abreviaram a sua estadia e retornaram
conosco no mesmo ônibus. Livraram-se, para sua sorte, do vexame que se
seguiria. Mal descemos a serra e a caravana de resgate familiar adentrou nos
domínios do Shan-gri-lá. Segundo me contaram a coisa foi feia. Os pais
desesperados só faltaram pedir exame de corpo de delito, para atestar a
integridade cabaçal das ninfetas indefesas. Não deve ter sido nada agradável a
viagem de volta das coitadas. Ouviram cobras e lagartos. Só depois da chegada
da Gláucia e da Ruth foi que tomei conhecimento do ocorrido. A minha indignação
durou alguns anos e abalou o meu relacionamento com os tios desconfiados. Nada,
porém, que o tempo não curasse.
CONVERSAS NO CÉU
A ficção de um ateu convicto
Estavam lá no céu o Vozinho e a Babá,
proseando tranquilamente, quando o Draulinho chegou, ainda meio assustado, sem
saber o que lhe havido acontecido. Só lembrava que estava tomando umas biritas
na praia de Genipabu e que quando voltava para casa tudo ficara escuro, inerte.
Acordou naquele lugar estranhamente calmo e deu de cara com seu querido avô e a
velha Babá que mal conhecera.
O Sinhozinho lhe explicou que ele
deixara a vida terrena e, por ser muito jovem, o seu espírito não estava ainda
preparado para aquela mudança. Daí aquele sentimento de espanto. Continuou
conversando com ele para acalmá-lo e prepará-lo para a nova vida que se
iniciava.
Depois que ele se acalmou e começou a
aceitar a sua nova condição, ficaram horas conversando. O Vozinho queria saber
de tudo o que acontecera desde o dia em que ele também subira. O Draulinho o informou
que as coisas estavam mais ou menos da mesma forma que ele deixara, já que se
passara pouco tempo entre o passamento dos dois. Um pouco menos de dois anos,
na contagem de tempo, lá da Terra.
A novidade mesmo era que a Geórgia
Maria, seu xodó, finalmente saíra do caritó. Os meninos da Zelinda continuavam
de vento em popa nos estudos. Os da Zoraida, sempre na sua vidinha muito
particular, lá pros lados da Messejana. Lá na Zenaide tudo continuava como ele
deixara, inclusive as estripulias da Yêda. Hildenizio continuava lá pelas
bandas de Minas. Hildeberto ainda tocava a sua fábrica de gesso e ia se
agüentando. Hildemar dividia seu tempo entre a fábrica de persianas e a
administração das casas da Estância que ficaram para a Vozinha. Isso sem contar
com aquela antiga guerra para receber os laudêmios. Diozinho continua na sua
carreira promissora, no Banco do Nordeste.
- E como está a sua avó, perguntou o
Sinhozinho.
- Ainda de luto, respondeu o
Draulinho. Não tira o preto por nada. Ainda chora pelos cantos, mas tem o
consolo dos filhos e netos e das suas orações. Mas não esquece o seu Sinhozinho
e não vê a hora de vir para cá.
- E como está a minha filha Zélia,
tão sozinha naquele Rio de Janeiro?
- Não tive muito contato com ela,
mas, pelo que sei, continua na batalha para criar a filharada, respondeu o
Draulinho.
- E a Zaída? Sempre me
preocupei muito com ela.
- Naquela mesma batalha de sempre. A
tia Zildamir também está bem. Tio Hildegardo está ajudando o tio Hildemar, lá
na Estância.
- Que bom, suspirou o Vozinho. Eu
sempre me preocupei muito com aquele menino.
- E a pobre da Zenaide e do Dráulio?
Como iriam suportar aquela perda tão repentina? Draulinho não soube como
responder.
Depois desse informe familiar, o
Draulinho pôs o Vozinho a par da situação política do país. Os milicos
continuavam mandando, não haviam entregado o poder aos civis, como prometeram,
em 1965, e estava começando a se esboçar movimentos de reação, principalmente
da parte da estudantada . A Prefeitura de Fortaleza havia institucionalizado a
Estância como um bairro, sob o nome de Dionízio Torres. Ao contar aquilo, o
Draulinho observou um lampejo de satisfação nos olhos do Sinhozinho. Mas foi
dissimulado, pois o orgulho era proibido lá no céu. A Babá a tudo ouvia, e não
se pronunciava. Apenas rezava, o tempo todo. Não tinha mais muito sentido
rezar, já que estava no céu, mas habito é hábito.
E, assim, continuaram conversando,
sem qualquer noção do tempo, já que, lá pelas bandas do céu, o tempo não conta.
Entretidos em suas conversas, mal perceberam a chegada inesperada da
Janete. Ela também chegara meio desnorteada sem saber o que estava se
passando. Só lembrava que estava tirando um cochilo depois do almoço e foi
despertada pela sua turma de amigos que a convenceram a ir até onde estava o
Stélio, seu namorado sem unhas. Lembra-se que iam num jeep, apinhado de
amigos e que, de repente, o tal veículo desgovernou-se e chocou-se com um
poste. Quando acordou ficou espantada em ver o Vozinho e o Draulinho. Soube,
então, que subira aos céus. O Vozinho não se conformou com a sua chegada
precoce. Lá pelo céu não cabiam sentimentos de revolta e nem de ira, mas ele
não entendia porque dois de seus netos tinham subido tão prematuramente. Uma
voz lhe acalmou: - desígnios de Deus, meu filho.
Depois que ele se refez pegou a
Janete pelo braço e iniciou a mesma inquirição que fizera com o
Draulinho. Ela lhe deu o informe completo das ocorrências da família. A
Zaída se separara e estava morando na vila. Neile, Cacau, Vilma, Terezinha e
Vanda tinham casado e já eram pais. Geórgia também lhe dera um bisneto. A
Zoraida já tinha tantos netos que nem conseguira decorar seus nomes. A não ser
os netos machos que tinham sempre um Paulo, em seus nomes compostos. A Zildamir
finalmente se separara de fato do Gilberto. Contou-lhe também que a maioria dos
seus netos já estava na faculdade. Iam passando no vestibular, um a um, sem
maiores dificuldades. O prodígios da Zelinda e do Hildemar conquistaram as
primeiras colocações. Os demais passaram nas posições intermediárias, mas não
com menos méritos. O Sinhozinho impou de tanto orgulho, sofrendo uma reprimenda
imediata daquela mesma voz, já que não cabiam esses sentimentos terrenos, lá
pelas bandas do céu.
A Janete informou que o Danton, filho
do Draulinho, nascera logo após a sua morte e que havia sido perfilhado pelos
seus pais. Draulinho se sentiu tranqüilo ao ouvir isso. Ele era seu filho com a
sua empregada doméstica e ele omitira isso, de todo mundo. Só para a Gláucia
ele dera uma palhinha sobre essa gravidez. Lamentou não ter conhecido o seu
próprio filho, mas suspirou resignado, por saber que ele cresceria no seio da
familia.
Perguntada pela situação política, a
Janete disse que não estava muito a par do assunto, já que havia muita censura
e ela, na sua tenra idade, não se interessava muito por aquilo. -Ah, já ia me
esquecendo, exclamou Janete. O homem pisou na Lua e o Brasil foi campeão
mundial de futebol novamente. O Vozinho não acreditava no que ouvia. Aí a
Janete perguntou ao Draulinho se ele chegara a conhecer o Chico, Caetano e Gil.
Ele respondeu que sim e ela desfiou os elogios ao Chico Buarque que adorava.
Passaram horas, os dois, só falando de música.
Mal a Janete concluíra o seu relato
apareceu a Zaída. Ainda atordoada com o acidente de que fora vitima, esboçou
um largo sorriso ao rever o querido pai. Beijou os dois sobrinhos, abraçou
fortemente o pai e o pegou pelo braço, fazendo um relato completo e
pormenorizado de tudo o que acontecera e que ele ainda não sabia. O
Dráulio e o Firmino tinham comprado um sitio na Serra do Baturité, um pouco
antes da morte do Draulinho. No primeiro dia em que foram para o tal sitio
souberam da morte dele. - Agora, informava Zaida, euzinha aqui estava lá
naquele mesmo sitio me divertindo com minhas irmãs e cunhados, quando a neta da
Zélia caiu do velotrol, tendo fratura exposta no braço. Como não havia recursos
no Baturité tivemos que trazê-la para Fortaleza, no carro da mamãe. Foi aí que
aquele Pitôta, barbeiro que só, perdeu o controle do DKW e eu vim parar aqui.
Nem sei o que aconteceu com a Zélia e com a neta dela que estavam comigo no
carro. Pelo menos não morreram, já que não estão por aqui. - Aquele sítio
é amaldiçoado, afirmou a Zaída. A voz mais uma vez desferiu a reprimenda: -
Aqui não se acredita em maldição.
Zaída também informou que o Dario da
Zenaide contraíra um carcinoma linfático e estava sob tratamento. Draulinho
chorou quando soube daquilo. Informou à Janete que seus pais ainda não
haviam se recuperado da recente perda. Se é que se recuperariam um dia. Quanto
à política, informou que os milicos estavam cada vez piores, matando e
torturando os opositores do regime. Devia estar acontecendo coisas mais
escabrosas que eram encobertas pela censura. – Ah, já ia me esquecendo,
exclamou Zaída! Tá rolando um “afair” entre o Dim e a Naná.
E ficaram ali, os quatro, a trocar
lembranças e reminiscências, só parando nos horários destinados às meditações
que tinham que respeitar. A Babá permanecia calada como sempre. Só rezava.
Passado um pequeno lapso de tempo, na
contagem de tempo lá do céu, apareceu, de mansinho, com aquele seu jeitinho
calmo, o Dario da Zenaide. Sua chegada não causou espanto, pois já era
esperada. Ao contrário do que ocorrera com Draulinho, Janete e Zaída, o
Dario não chegara espantado, sem entender o que lhe ocorrera. Já vinha se
preparando para aquilo. Lá na Terra todos pensavam que ele não sabia da
gravidade da sua doença. Mas ele não era nenhum tolo. Escutara as conversas
atrás das portas, lera as bulas dos remédios e sempre soubera que seu caso era
sem jeito. No final já ansiava por aquele desfecho, para por fim a tanto
sofrimento. Seu e o de sua mãe que o acompanhou até o fim. Isso sem falar da
dedicação diuturna de suas irmãs que se sobrepujaram em cuidados, para
aliviar-lhe as dores que sentia. Draulinho emocionou-se ao rever seu irmão
preferido, embora lamentando a sua subida tão precoce, como também o fora a sua
própria. Pensava também no sofrimento de sua mãe ao perder dois filhos varões.
Da mesma forma que ocorrera com os
antecessores, o Dario também foi submetido à usual sabatina pelo Sinhozinho,
para atualização das novidades terrenas e sobre a vida de seus entes queridos.
Contou que o Flavinho tinha feito o doutorado na Inglaterra. Todos os finais de
ano choviam os convites de formatura da primarada dos Torres. A família ia
crescendo, com a adição das proles dos netos do Sinhozinho que não paravam de
procriar, embora, num ritmo bem mais lento do que a primeira geração. Danilo se
casara e já era pai de Daniele. – E a sua avó? Sempre repetia essa
pergunta a cada um que chegava. - A Vozinha, respondeu Dario, ia sobrevivendo,
se arrastando, esperando pela hora do reencontro com o seu amado. O que
ainda a animava eram as tardes em sua varanda, onde se promoviam os encontros
de suas filhas, genros e alguns netos que para lá se dirigiam, religiosamente,
para tricotar, contar lorotas, fofocar um pouco e rir a tarde toda. – Ah,
já ia me esquecendo, exclamou Dario! Dráulio e Zenaide se separaram,
pouco antes da minha partida. O Sinhozinho ficou assombrado com aquele
despautério.
Mais um pequeno lapso do tempo
celestial e adentrou às portas do paraíso a Vozinha Geórgia que o Vozinho tanto
esperara. A ela ele não perguntou nada. Não queria saber de inquirições.
Demorou-se bastante tempo, apenas curtindo a sua velhinha tão amada. Passaram
dias e dias os dois, juntinhos, a passear pelas nuvens, curtindo o som das
liras celestiais. Que parzinho maravilhoso eles compunham.
Pouco tempo depois chegaram
Hildegardo, Paulo Benevides, Sigefredo e Dráulio. A família celestial do
Sinhozinho não parava de crescer.
Cada um que chegava o atualizava com
as informações sobre a família e a vida cá na Terra. – O senhor não conheceria
mais Fortaleza, se pudesse a ela retornar, afirmou Dráulio. A caixa
d´água da Estância sumiu,
engolida por tantos prédios ao seu redor. A cidade cresceu demais. O
velho Joaquim Távora caiu no ostracismo. A Visconde do Rio Branco é apenas um
mero desvio. A sua casa velha foi demolida. Toda aquela área da Joaquim Torres
pertence ao laboratório. Novas avenidas são rasgadas do dia para a noite,
modificando a fisionomia da cidade. A Aldeota cresceu tanto que chegou perto da
Praia do Futuro. Não há mais terrenos baldios na Estância. A ponte metálica foi
recuperada e está cheia de barzinhos a sua volta. As salinas do Cocó foram
aterradas e o mangue foi recuperado. Tem um grande shopping center por lá. -
Shopping center? O que é isso, exclamou Draulinho? O Vozinho a tudo
escutava abismado. E a Babá sempre calada.
Passou um tempo considerável, desde a
chegada de Dráulio, sem que nenhum membro da família subisse aos céus. Aurinha
iniciou a nova leva. A ela se seguiram Hildeberto, Zenaide, Zélia, Hildenizio,
Hildemar e Paulinho. Foram emocionantes os encontros desses filhos com o pai
idolatrado. Depois veio Cláudio, filho do Cacau e, alguns anos terrestres
depois foi a vês de Firmino, seu genro predileto. Os mais velhos, se
considerado o avançado da idade, tiveram morte natural. De quedas, doenças,
falência dos órgãos, tudo normal em se tratando de pessoas com longa estrada
percorrida. Apareceu por lá o Ricardo, filho de Flavinho, de morte NADA
natural. Uma tragédia. O vozinho não conhecera o bisneto, mas se comoveu com o
sofrimento do seu neto querido, pai do rapaz. Yêda chegou por lá, de mansinho,
bem diferente do que ela era por aqui. Cumprimentou a todos e disse estar feliz
por iniciar uma nova vida. Não tinha motivos para ter saudade da vida terrena e
tinha esperança de encontrar a paz que por aqui nunca teve. A Zoró também chegou
por lá. A mais longeva de todos. Arrumou o seu sambique, tirou a poeira do
sandravérbio e correu à procura do seu Bonequinho de Louça, jamais esquecido. O
Sinhozinho, doido pra abraçar a sua primogênita, respeitou aquele momento dos
pombinhos saudosos. Só depois foi ter com a filha, para por a prosa em dia. Os
irmãos, os filhos Célio e Paulinho, bem como seus sobrinhos fizeram o mesmo.
Houve festa lá no céu e muita emoção, cá na Terra.
Muitos anos terrenos se passaram sem
uma única subida, até que Ronaldo foi ao encontro de seus pais e irmãos. Zoró
adorou rever o filho. O povo da Terra ia ficando velho, vencendo a validade e a
vida cuidava de ascendê-los. Gatê foi vitimada pela doença maldita que já havia
levado o Dario e lutou como uma guerreira, para debelá-la. Após muito
sofrimento foi vencida pelo inevitável. Sua subida causou muita comoção, cá na
Terra, mas foi pura alegria, lá no céu. Deu um beijo apertado na mãe querida e
saiu de braços dados com Draulinho e Dario, atualizando-os com as coisas
terrenas. Dario não gostou nadinha de saber que o seu Fortaleza está amargando
na terceirona, por anos e anos repetidos.
E, assim, pouco a pouco, o Vozinho
foi recuperando a sua família e sua descendência, agrupando-a lá no céu. A
Maria, aquela Maria de tantas histórias, também já deve estar por lá, muito
provavelmente. Mas deve continuar sempre nos arredores.
Aquela voz passa o tempo todo
ralhando com ele para que deixe dessa mania de ficar almejando ter a sua
família reunida a sua
volta.
Não se cansa de dizer-lhe de que precisa ter paciência e esperar o tempo de
cada um. A vida deve seguir seu curso natural. Eu, por exemplo, seu neto,
embora de pouco convívio com ele sempre o admirei e fiz de seu caráter
uma de minhas principais referências de vida. Se realmente houvesse vida
além da morte e não fosse essa historieta uma peça de pura ficção, de autoria
de um ateu convicto, eu bem que gostaria de revê-lo, beber da sua sabedoria,
contar-lhe como foi a vida por aqui, depois da sua partida. Mas, só daqui a uns
cinqüenta aninhos, viu Vozinho?
UM
CONTO DA VIDA REAL
Essa é uma história que assume os ares dramáticos e novelescos da Venus
Platinada, mas que ocorreu de fato, numa prova de que a vida muitas vezes imita
a arte.
No início de 1968 o clã dos Torres Hollanda perdeu o seu varão primogênito,
Dráulio Hollanda Filho, num trágico acidente automobilístico, ocorrido em
Natal. Sete anos depois, o terceiro varão também se foi, vitimado por um câncer
linfático, com apenas 19 anos de idade. Só vingou mesmo o varão do meio, este
que vos fala, corroborando o dito popular de que vaso ruim não quebra.
Quem já passou pela experiência da perda de
um ente querido, bem sabe o sofrimento que se abate no seio familiar. Minha mãe
jamais se recuperou dessas duas perdas. Os primeiros meses, após a morte do meu
irmão mais velho, foram sepulcrais e a retomada da normalidade familiar parecia
um sonho distante.
Mas, logo em abril daquele mesmo ano, um fato inusitado causou uma guinada na
rotina de sofrimento que se instalara em nossa casa, no Sítio Querência. Uma
amiga potiguar do meu irmão veio à Fortaleza, com a finalidade de nos comunicar
que a auxiliar doméstica dele estava grávida de um filho seu, com o nascimento
previsto para o início de maio.
A boa notícia pegou de surpresa toda a família. E causou o maior reboliço, um
mês mais tarde, quando recebemos a notícia de que o rebento nascera, a 11 de
maio.
Minha irmã mais velha, Geórgia Maria, imediatamente se deslocou para Natal para
ver o menino e a mãe. Encontrou-os em uma favela, em precárias condições. A mãe
foi logo sinalizando que não tinha recursos para criar o menino e o ofereceu
para adoção pela nossa família, o que foi aceito de pronto. Aliás, a Geórgia já
saiu daqui de Fortaleza com esse objetivo.
A sua chegada foi um raio de sol que inundou de vida a nossa casa, minorando o
sofrimento e a penumbra que se instalara. Meu pai convocou uma reunião familiar
e pediu a aprovação de todos para o processo de perfilhação que pretendia levar
a efeito. E assim foi feito, voltando o clã dos Torres Hollanda a recompor a
sua extraordinária cota de oito filhos.
Nunca escondemos do menino a sua condição de filho-neto ou de irmão-sobrinho.
Minha irmã teve o cuidado de fotografá-lo inúmeras vezes no colo da mãe e ele
cresceu sabendo de toda a história.
E assim o tempo passou, o menino cresceu e fez-se adulto, sem qualquer notícia
de sua mãe. Certa vez até lhe perguntei se ele não tinha curiosidade ou vontade
de procurar a mãe. Ele me revelou que pretendia deixar tudo como estava.
Felizmente, deixou claro que não julgava a mãe e nem a condenava pelo abandono.
E vida seguiu seu curso até que em junho de 2010 recebi a seguinte
mensagem pelo ORKUT:
Bom dia sr. Danilo
...eu e meu marido estamos procurando uma pessoa, e acredito que seja de sua família.
É um assunto muito delicado e importante. Meu marido esta tentando encontrar seu irmão por parte de mãe, sua mãe chama-se Josefa Anna de Araújo, ela teve um filho, Danton, quando muito mocinha, com sr. Dráulio Hollanda, sabemos que o mesmo, faleceu em um acidente. Sabemos muito pouco, temos 3 fotos do bebê, em uma delas tem o nome da tia por parte de pai, Ruth Hollanda.
Minha sogra é analfabeta e seu tio na época em Natal, queimava todas as cartas....enfim, meu marido gostaria de conversar com o senhor se possível, pelo que conseguimos de dados acreditamos que o senhor seja tio do Danton.
Se o senhor, puder e quiser, poderia nos dar seu email ou telefone para conversamos e possível?
Nossos contatos:
Luiz Carlos:
email:lobatopsa@yahoo.com.br
Fone: (14) 9735-2476
Helen:
email e msn:helenrose.moreira@hotmail.com
fone: (14) 9735-2473
Respeitosamente
Helen Rose
...eu e meu marido estamos procurando uma pessoa, e acredito que seja de sua família.
É um assunto muito delicado e importante. Meu marido esta tentando encontrar seu irmão por parte de mãe, sua mãe chama-se Josefa Anna de Araújo, ela teve um filho, Danton, quando muito mocinha, com sr. Dráulio Hollanda, sabemos que o mesmo, faleceu em um acidente. Sabemos muito pouco, temos 3 fotos do bebê, em uma delas tem o nome da tia por parte de pai, Ruth Hollanda.
Minha sogra é analfabeta e seu tio na época em Natal, queimava todas as cartas....enfim, meu marido gostaria de conversar com o senhor se possível, pelo que conseguimos de dados acreditamos que o senhor seja tio do Danton.
Se o senhor, puder e quiser, poderia nos dar seu email ou telefone para conversamos e possível?
Nossos contatos:
Luiz Carlos:
email:lobatopsa@yahoo.com.br
Fone: (14) 9735-2476
Helen:
email e msn:helenrose.moreira@hotmail.com
fone: (14) 9735-2473
Respeitosamente
Helen Rose
Após me recompor do susto e da emoção liguei imediatamente para a Gláucia, para
saber como proceder. Ela me aconselhou a ligar para o Dan e eu o fiz, ainda
meio receoso da sua reação à notícia. Foi um choro só, aquela ligação. De parte
a parte. Levamos alguns minutos sem conseguir falar. Só chorávamos.
Quando ele se refez ligou para a Helen Rose que vinha ser a sua cunhada, casada
com um dos seus irmãos. Veio então saber que a sua mãe fora proibida pelo tio
de ter qualquer contato com a nossa família. Mais tarde ela se casou e teve
mais oito filhos. O marido também não queria saber de contatos conosco. Só
quando ele morreu, em 2009 foi que ela, com o incentivo dos demais filhos, saiu
em busca de seu primogênito.
Dois meses mais tarde a família toda se reuniu na cidade de Bauru e lá se foi o
meu irmão-sobrinho conhecer a sua outra banda de família. Foi uma festa só. O
encontro com a mãe foi o mais emocionante. Do topo de sua humildade, a coitada
pediu perdão ao filho por tê-lo abandonado. Estava certa de que ele não a
perdoaria. Pelo contrário. Ganhou um filho amoroso e ele oito irmãos e uma ruma
de cunhadas e sobrinhos.
A vida imita ou não imita a arte?
CADETADA ESCATOLÓGICA
Esse “causo” era contado pelo meu pai
e aconteceu em um desfile militar de 7 de setembro entre 1936 e 1938, não estou
bem certo. O palco, a cidade do Rio de Janeiro, mais precisamente, a Av.
Presidente Vargas. Naqueles anos, a Academia Militar que formava cadetes do
Exército era situada em Realengo, um subúrbio distante do centro do Rio. Na
véspera do dia 7 de setembro a cadetada foi deslocada do Realengo para um
quartel no centro, para que pudesse estar formada no dia seguinte, logo às 6:00
h, para a parada militar prevista para as 11:00 h. Isso mesmo, às 11:00 h!
Milico é assim mesmo, chega cedo! Chegaram então, ao tal quartel, às 17 h do
dia 6 e foram logo para o rancho, onde foi servido o jantar. Jantar às 17 h?
Isso mesmo, milico janta cedo! No dia 7 de setembro, os clarins da
alvorada festiva anunciaram o dia da Pátria logo as 5:00 da manhã. Alvorada às
5 da manhã? Isso mesmo, milico acorda cedo! Vestiram seus uniformes de gala,
foram para o rancho para engolir o café, embarcaram nas viaturas e às 6 h
estavam formados ao longo da avenida onde ocorreria o desfile. Tudo isso em 1
h? Isso mesmo, milico se apronta cedo! E puseram-se a esperar pela engalanada
hora do desfile que só ocorreria dali a quatro horas. Duros, retos, em forma,
sem piscar. A partir daí começou a tragédia. Algo do jantar do dia anterior,
servido no quartel de pernoite, caiu mal nos calejados estômagos da cadetada,
acostumados às lavagens do rancho da caserna, mas não preparados para as
salmonelas de tão alto poder destrutivo que contaminaram o jantar. A flora
intestinal da cadetada foi ferida de morte. E os efeitos começaram a ser
sentidos, logo na primeira hora da formação militar, à medida que o sol carioca
matutino catalisou o processo de fermentação daqueles buchos. Começaram a
pipocar os sinais de que a coisa estava ficando feia. Um cadete verde aqui,
outro branco ali, um azulado acolá, barrigas grunhindo, um punzinho melado mais
adiante, um filete de merda escorrendo pelas calças, inundando botas
engraxadas. Um cadete desmaiando, outro caindo, teso, mas todo cagado e a coisa
foi tomando vulto até que o comandante da parada, já meio que tardiamente
decretou o “salve-se quem puder” e a debandada geral em busca de banheiros para
aliviar aqueles pobres intestinos juvenis. Foi um deus-nos-acuda. Era cadete
correndo pra todo lado. Invadiram bares, restaurantes, farmácias e até as
residências das ruas adjacentes à Av. Presidente Vargas. Os moradores das redondezas
já haviam sido alertados do desastre e, gentilmente, abriam as portas de suas
casas para que eles pudessem se aliviar. E foi numa dessas residências que
ocorreu o fato mais inusitado desta história escatológica. Um dos cadetes,
amigo do meu pai, adentrou, intempestivamente, em uma residência, atravessando
a sala, como um azougue. Mal deu tempo para indicarem-lhe o banheiro, no final
do corredor, onde concluiu o que ainda restava da sua cagada que, para o seu
desespero, já começara no meio do quarteirão e já empapara a sua cueca. Só
depois de aliviado é que ele se deu conta disso. A cueca estava “investível” –
plagiando o Rogério Magri. Então, pensando que nunca mais retornaria àquelas
paragens, embolou a cueca apodrecida e a deixou no pé do vaso sanitário. Saiu
todo fagueiro, cumprimentou e agradeceu a gentileza da família e voltou para a
formação militar que, a essa altura, já se recompunha do desastre. Mas, ao
cruzar a sala, onde a família se reunira para acompanhar o corre-corre que se
estabelecera na rua, o tal cadete vislumbrou a mulher de seus sonhos. Na
passagem de ida para o banheiro, os espasmos intestinais e a pressa o cegaram
totalmente. Mas no retorno, já mais calmo, pode reparar na beleza de uma das
beldades da família. A paixão foi instantânea. Dias e dias de indecisão sobre o
que fazer para tornar a vê-la. Como retornar àquela casa, depois de deixar a
cueca suja no cantinho do banheiro? Mas o amor foi mais forte do que a
vergonha. Tanto que, já na primeira folga que se seguiu ao desarranjo militar,
lavou-se, barbeou-se, passou óleo de peroba como pós-barba e, na maior
cara-de-pau do mundo, teve a coragem de retornar à casa da amada para resgatar
a cueca cagada. E foi assim, sobre as bases da merda patriótica que se
estabeleceu o relacionamento amoroso do casal, culminando com o matrimônio que
perdurou pelo resto de suas vidas. Conto essa como verdadeira, pois o meu pai
não era um homem de mentiras.
O ENXAME
Esta história aconteceu conosco em
Caravelas, no sul da Bahia. Num final de manhã, voltávamos, eu e minha mulher,
para casa para o almoço em família – um luxo que só uma cidade do interior pode
proporcionar – quando estranhamos o fato de que a nossa filha Monalisa, então
com quatro anos, estava do lado de fora de casa, junto com a babá. Naquele
horário ela sempre estava tirando a sua costumeira soneca vespertina.
Ainda apavorada a babá nos contou que
um imenso enxame de abelhas havia invadido o quarto de Monalisa e que elas
haviam conseguido escapar, correndo para a rua.
A casa era um sobradinho de dois
pavimentos. Os quartos ficavam na parte superior. Com todo o cuidado do mundo
comecei a galgar os degraus da escada, em direção ao quarto de minha filha. O
zumbido do enxame era assustador. Deveria ter ali um bilhão de abelhas (parei
de contar, quando cheguei aos novecentos milhões).
Caravelas não tem corpo de bombeiros
ou defesa civil a quem eu pudesse recorrer. Então decidi que eu mesmo teria que
resolver aquela parada.
Graças às muriçocas que infestam a
região, nós tínhamos um razoável estoque de inseticida em casa. Peguei a
bombinha de flit, carreguei-a até a boca e voltei para a escada.
À medida em que subia os degraus fui
bombeando o inseticida, gerando uma nuvem de proteção à minha frente. Aquilo
acirrou as abelhas, mas elas se mantiveram à distância da nuvem que eu criava
com as incessantes bombeadas.
E assim fui conseguindo empurrar as
abelhas que já dominavam o corredor que dava acesso aos quartos no andar
superior, até confiná-las no quarto de Monalisa que ainda estava com a janela
aberta para a varandinha frontal da casa.
Já havia consumido duas cargas do
reservatório da bombinha e meus braços já estavam latejando. O corredor já
estava atulhado de corpos das abelhas da comissão de frente. Consegui
finalmente chegar até o quarto de Monalisa. A minha esperança é que elas
fugissem pela janela aberta, mas elas não arredaram o pé – ou as asas.
Compreendi então que a rainha devia
ter se refugiado no quarto e elas não a abandonariam. Introduzi o bico da bomba
na pequena fresta da porta que permanecera entreaberta e fiquei ali bombeando
feito um doido, por muitos minutos, inundando o quarto com a nuvem mortífera.
Só quando senti que o zumbido
diminuíra foi que me atrevi a entrar no quarto. O chão estava coberto pelos
milhares de corpos das abelhas mortas. Notei que ainda havia uma movimentação
na segunda gaveta da cômoda de Monalisa. Descobri que era ali que a rainha se
refugiara, certamente para construir o centro da colméia. Havia outro bilhão de
abelhas na gaveta. Ainda se movimentavam, mas não mais voavam. Apontei a
bombinha para a fresta da gaveta e liquidei a fatura naquele momento. A essa
altura eu já estava meio zonzo de tanto inalar inseticida.
Mais tarde a empregada varreu todas
as abelhas do chão e da gaveta, amontoando-as no centro do quarto. O volume era
tão impressionante que eu coloquei-as num grande saco plásticos que levei mais
tarde para o meu frigorífico, para mostrar às pessoas e para pesá-lo. O saco
pesou incríveis 1,050 kg de corpos de abelhas mortas.
Monalisa nasceu novamente naquele
dia. Se as abelhas tivessem entrado no quarto dela na hora da sua soneca, ela
certamente teria sido morta pelo enxame. Anos mais tarde ela renasceu de novo,
ao escapar ilesa de um terrível acidente de carro que sofremos na estrada para
Caravelas. Depois eu conto essa.
O CAUSO DA "ZORRA"
O Nhã, Torres, ou Torrinho sugeriu
que eu contasse aqui o caso da ZORRA. Vou fazê-lo só para que ele não tenha
desculpas para não revelar o nome da prima que foi sua paixão secreta da
primeira idade. A Zorra foi uma dessas paixões de criança. O codinome foi
colocado usando a inicial do seu nome: Zoraidinha. Tivemos que adotar esse
codinome pois a paixão era secretíssima, irrevelável. Digo “tivemos” porque a
paixão era minha, mas foi curtida e conduzida a três: por mim, pelo Torres e
pelo Henrique. No principio eram só as intermináveis conversas, secretas, à
meia voz, com todo o cuidado para que o segredo não fosse revelado. Tínhamos
pouco mais de 13 anos. Os meninos de hoje, nessa idade, são bem atirados e vão
para cima mesmo. Mas, naqueles tempos, a coisa era diferente. Éramos bem
abestados e acanhados. A Zoraidinha já era uma mocinha bem bonitinha e vivia em
um mundo muito distante do meu. Já freqüentava o Balneário de Messejana, ia a
festas e tinha um circulo de amizades próprio. Eu era apenas um “menino calça
curta do cabelo arrepiado que queria ser soldado do primeiro batalhão e ganhar
mais de um milhão ...” lembram dessa música do Silvio Cesar? Era interno
no Colégio Militar e não tinha vida social alguma. Então passavam-se meses e
meses sem que eu a visse. Às vezes eu tentava a sorte na saída do Imaculada, ou
no ponto do ônibus de Messejana, tentando vê-la, pelo menos de longe, mas
nunca lograva êxito. Um belo dia veio a oportunidade de revelar aquele amor à
vitima que, até então, nem sonhara com aquele descalabro. O tio Paulo seria
homenageado na TV Ceará, naquele programa “7 dias em Destaque” que distribuía
uma jangadinha para os proeminentes do Estado. Soubemos disso com certa
antecedência e, para nosso regozijo, toda a família Torres Benevides estaria
presente ao programa. Toda a família, inclusive a Zorra. Não podíamos
desperdiçar aquela oportunidade. Então veio a idéia de escrever uma carta,
revelando aquele amor juvenil e entregá-la lá nas dependências da TV, já que o
tio Hildemar morava ao lado da estação. A primeira tarefa foi escrever a
dita carta. Resmas de papel foram gastas nas inúmeras tentativas e versões,
todas escritas a seis mãos. Um palpite de um e de outro, tira isso, põe isso,
diz assim e assado até que chegamos a um texto de consenso. E foi passado a
limpo com todo o cuidado. E quem porá o guiso no gato? Quem entregará a carta?
Após discussões acaloradas chegou-se à decisão de que essa espinhosa tarefa
caberia ao Henrique que era o meu fiel parceiro e a quem sempre cabiam essas
missões impossíveis. O dia marcado para o programa foi de intensa expectativa.
As horas não passavam e, quando passavam, aumentavam o nervosismo. Parecia que
nos preparávamos para cometer um crime. Finalmente, cedo da noite,
posicionamos-nos em um local previamente escolhido, ao lado da casa do tio
Hildemar, de onde tínhamos uma visão privilegiada da portaria principal
da TV Ceará. E lá ficamos à espera do carro do Tio Paulo, quietos, na
tocaia. Quando, finalmente, eles chegaram, empurramos o Henrique para a rua
para que ele cumprisse a sua missão. E ele o fez com a eficiência de sempre.
Assediou a Zorra e entregou-lhe a carta, sem proferir uma só palavra. A Zorra
pôs a carta no bolso do vestido de gala que usava e entrou nos estúdios da TV
para participar do programa. O Henrique retornou e corremos para casa para
assistir ao programa ao vivo. Só muito tempo depois eu soube, pela Dil, que ela
abriu a carta já em Messejana, no Balneário, e a mostrou à irmã. Nunca soube da
sua reação. Nunca falamos sobre isso. Depois disso a coisa se espalhou e todo
mundo mexia comigo por causa daquela paixão incontida. A Keuca sempre me
dirigia comentários maliciosos e parecia que torcia por mim. Não me lembro mais
por quanto tempo essa paixão persistiu. O tempo a dissipou. Poucos anos depois
ela casou-se, mas já não havia nenhum resto a lamentar.
ATROPELANDO O JUMENTO
Quando eu tinha 16 para 17 anos, vivia
aquela fissura adolescente de pegar o carro lá de casa para dirigi-lo. Vejam o
causo do roubo da Kombi, para ter idéia do que eu fazia para ter a oportunidade
de dirigir. Como as regras lá de casa eram de caserna, o máximo que me
permitiam, nessa época, era levar os irmãos menores até o ponto de
ônibus, localizado a 900 m de distância lá de casa. Isso oficialmente, pois,
por debaixo dos panos, eu era perito em roubo do carro familiar e o fazia
sempre que possível. Numa dessas idas ao ponto de ônibus, o Dario, meu irmão
caçula, precocemente falecido, me acompanhou na viagem. Na volta, após
deixarmos a Ruth e Neta no ponto do ônibus, o Dario, então com 11 ou 12 anos,
pediu-me para dirigir. Eu entendia a ansiedade dele em dirigir, já que eu
também ainda sofria dela. Não pude deixar de atendê-lo. Trocamos de posição e
ele começou a dirigir aquela pickup imensa, uma F-100, cabine dupla, verde que
o velho tinha comprado recentemente. Convenhamos que foi uma irresponsabilidade
sem tamanho a que cometi, ao deixar que ele conduzisse aquele monstro, em seu
primeiro vôo solo. Nos primeiros metros ele até que se saiu muito bem, sem
sobressaltos. Mas, percorridos uns 200 m, deparamo-nos com um camarada montado
num jumento, bem no meio do calçamento. Eu gritei para o Dario: - olha o
jumento, pisa no freio. A minha intenção era que ele parasse o carro para eu
poder passar pelo jumento e depois devolver-lhe a direção. Mas, graças a sua
inexperiência, ele se aperreou e, ao invés de pisar no freio, calcou o pé no
acelerador. O motorzão da F-100 respondeu de pronto. Todos os cavalos daquele
motor exagerado partiram para cima do jumento. Imediatamente eu empurrei o
Dario para o lado, assumi a direção e consegui evitar uma tragédia maior,
resvalando no jumento e atingindo a sua anca esquerda de raspão. Com o
movimento brusco na direção para o lado esquerdo, a pickup saiu do calçamento,
projetou-se sobre uma cerca de arame farpado e foi parar no meio de um terreno
encharcado. Para evitar maiores conseqüências, troquei de lugar com o Dario,
assim que o carro parou, para que achassem que eu o dirigia no momento do
acidente. Ficamos ali, mais de uma hora, com a ajuda dos moradores do local,
tentando tirar o carro do atoleiro, até que conseguimos. Nesse meio tempo, o
dono do jumento que, por sorte, não se machucou, ficou por ali e depois montou
no jumento para ir embora. Lembro-me, nitidamente, de tê-lo visto se afastar,
com o jumento mancando da perna esquerda e, mais adiante, aprumando o passo.
Os danos no carro se resumiram em arranhões profundos na pintura do capô,
provocados pelo arame farpado. Retornamos à Querência, onde a D. Zenaide já nos
esperava, aflita com o tardar da hora. Contei-lhe a história, omitindo o fato
de que era o Dario que dirigia no momento do acidente. Ao cair a noite, o
camarada do jumento foi até a Querência para reivindicar uma indenização, por
lucro cessante, já que o jumento ficara impossibilitado para com trabalho, por
pelo menos por uma semana. A D. Zenaide me chamou para assistir a conversa e
argumentamos que ele também tinha culpa, pois estava com o jumento bem no meio
da rua. Encurralado, o tal camarada, para meu pavor, afirmou, para a minha mãe,
que era o menorzinho quem estava ao volante e, com isso, perdera toda a razão
na história. A minha santa mãe olhou para mim e indagou se aquilo era verdade.
Prontamente eu retruquei que não, que aquilo era um absurdo, um artifício do
camarada para ganhar a indenização. Eu tinha visto que o jumento começara a
caminhada mancando, mas logo recompusera o passo. O camarada estava se
aproveitando da situação para ganhar algum na história. Ao me ver reagir e
negar, a D. Zenaide tomou as dores e afirmou, alto e bom som, que o seu filho
não mentia para ela. Aquilo doeu lá no fundo, mas eu não podia voltar atrás e
deixar o sabidão ganhar aquela parada. Acho que ele também não estava bem certo
se era o Dario ou eu quem estava dirigindo, já que trocamos de lugar muito
rapidamente, logo que o carro parou. Por fim ele se deu por vencido, saiu
praguejando e nunca mais retornou. Assim que ele se retirou, a D.Zenaide me
lançou aqueles olhos de mar e me inquiriu novamente, para saber a verdade dos
fatos. Desta vez eu não menti e contei-lhe todo o ocorrido. Ela ficou indócil.
Eu fizera que ela mentisse para o pobre homem. Não houve jeito de convencê-la
de que o camarada era um oportunista e que a mentira fora necessária. Se eu
admitisse que era o Dario, seríamos vítimas da extorsão do indivíduo. Mas não
teve jeito. Na sua formação dioniziana ela não admitia mentiras, mesmo que a causa
fosse nobre. Para minha sorte o general, meu pai, estava viajando e só soube do
acidente uma semana depois. Ele nunca soube que o Dario era o condutor. E eu
fiquei com fama de mentiroso, perante a minha mãe e de barbeiro, perante meu
pai. Bem feito
O AFOGAMENTO DO CACAU
Eu não participei desse episódio e
vou contá-lo a partir do que ouvi a respeito na época. O Pery e a Hilnete
(saudade das azeitoneiras ...) tinham uma casa muito gostosa, em Camocim, no
Ceará, equipada com piscina, muitos quartos e uma área de lazer aprazível. Vire
e mexe a parentada aparecia por lá, apesar da distância, para matar a saudade
dos primos queridos e para curtir as delícias da cidade. Um desses encontros
familiares ocorreu no carnaval de um ano que não me lembro, entre o final da
década de 70 e o início dos anos 80. Lembro-me que, dentre os participantes,
estavam a Neile, Mário, Gláucia, Dim, Cacau e outros mais. A lança-perfume
rolou solta. A Gláucia contou que um vidro de lança quebrou no seu peito,
encharcando a blusa e o sutiã. O pessoal caiu em cima dela para aspirar a lança
até o último cheirinho e ela se sentiu o máximo, pois nunca, tantos homens, se
esfregaram e se lambuzaram em seu peito, simultaneamente, com tanta
sofreguidão. A cachaça também rolou aos borbotões, durante todo o período
de carnaval. Era um porre curado com o seguinte. Contaram-me que o Mário só
dormia bêbado e, propositadamente, se atravessava na porta da sala, para que
fosse despertado, caso alguém se atrevesse a sair para o carnaval de rua sem chamá-lo.
Só abria a porta se o acordasse. Mas o personagem principal desse “causo” foi
mesmo o nosso querido primo Cacau, gente boa, filho do tio Hildegardo. Durante
o porre generalizado que ocorria durante o dia e que antecedia o porre da
noite, deram por falta do Cacau. Procura daqui, chama dali e nada do Cacau.
Aonde se metera ele? Durante a procura o Dim foi até a piscina, chamando por
ele e, ao olhar para o fundo da mesma, viu que ele jazia submerso, de braços e
pernas abertos, inerte, moribundo. O Dim deu o alarme e imediatamente pulou na
piscina, resgatando o afogado. Ele já estava cianótico, muito prá lá de Bagdá.
Não se sabe quanto tempo ele permaneceu no fundo, mas foi tempo suficiente para
deixar a sua vida por uma péinha de nada. Imediatamente a equipe médica
presente (Mário, Neile e o Roberval, amigo do Pery) se mobilizou para prestar o
socorro adequado à vítima, com direito à respiração boca-a-boca, porrada no
peito, massagem no bucho, de bruços, para expelir a água dos pulmões e todos os
procedimentos aplicáveis àquela emergência. E foi graças a essa pronta
intervenção dos médicos presentes que o Cacau “não deu uma morrida” naquele
momento. Tossiu, vomitou, estrebuchou, expeliu água por todos os furos e,
finalmente, voltou ao nosso convívio. O Roberval, também conhecido como queixo
de tamanco, que era o único médico de Camocim e estava mais acostumado a essas
emergências teve uma atuação preponderante no salvamento, fazendo a respiração
boca-a-boca e provocando o vômito daquela mistura de água com bebida e os
restos da última refeição. Concluído o salvamento, ele providenciou a
ambulância que transportou o ainda cambaleante Cacau até Fortaleza, para que
ele recebesse cuidados médicos com mais recursos. A Neile o acompanhou no
retorno a Fortaleza e, após certificar-se de que ele recebera os cuidados
devidos e que estava fora de perigo, retornou à merecida farra em Camocim. No
dia seguinte ao ocorrido, o Cacau, ao saber da providencial intervenção do
médico Roberval no seu salvamento, ligou do hospital para ele.
Emocionado, entre lágrimas, agradeceu-lhe o salvamento. O Roberval que era um
sujeito muito engraçado e cheio de tiradas sarcásticas disse a ele: -
Cacau, meu filho, da próxima vez que você for se afogar, veja se não come tanto
macarrão ... Uma alusão à quantidade de macarrão que o Cacau vomitou em sua
boca, durante os procedimentos de salvamento. Passado o susto, a cambada caiu
novamente na gandaia, beberam todas e o carnaval seguiu sem mais sobressaltos.
O causo do San Rafael
Naquele tempo o Dim e o Betão estavam
no auge da fissura pelas pescarias. Qualquer ventinho mais favorável era motivo
para que eles corressem para o quebra mar do Farol e colocassem as iscas
n’água. O tio Hildeberto também os acompanhava. E ficavam me gozando com as histórias
sobre os peixes enormes que pegavam. Eu ainda dava os primeiros passos, nas
pescarias de praia, pegando peixinhos mirradinhos. Algumas vezes fui com eles
ao quebra mar e não pegávamos nada nesses dias. Aos poucos fui criando fama de
pé-frio. Depois eles descobriram que a Fátima - minha primeira mulher -
era culpada pelo azar na pescaria, pois ela era sempre contra a minha
participação e jogava pragas certeiras sobre nós. Um dia, meio que relutantes,
eles me convidaram para uma pescaria na Praia do Sabiaguaba. Não havia ainda
acesso por terra àquela praia. Tínhamos que atravessar o rio Cocó, na altura do
Caça e Pesca, e assomar as dunas do outro lado até chegar aos paredões de pedra
que se projetavam no mar, propiciando lançamentos excelentes, nas partes mais
profundas daquela costa. Uma vez o tio Hildeberto pegou uma “serra” de quatro
quilos naqueles paredões. Alguns espécimes de xareu enormes também foram
capturados por lá. Era ali que se realizavam os campeonatos de pesca do Ceará.
Marcamos a pescaria para o entardecer de um sábado. Faríamos a travessia lá
pelas cinco da tarde, passaríamos a noite toda pescando e voltaríamos às dez da
manhã do dia seguinte. Marcamos o encontro na casa do tio Hildeberto, juntamos
a tralha toda e rumamos para o Caça e Pesca, na hora aprazada. No caminho
sugeri ao Dim que passássemos em algum açougue para comprar uma carnezinha para
assar na noite que nos esperava. O Dim foi logo me esculhambando: “nada disso,
seu nêgo, pescador tem que se garantir com os peixes que pega”, dizia o Dim.
Desta forma compramos apenas os temperos para cozinhar os peixes que certamente
pegaríamos. Levamos umas quatro garrafas de San Rafael, aquele “L’aperitiffe de
France” intragável e algumas dúzias de laranjas. E só. Fizemos a travessia do rio,
combinamos a volta com o barqueiro e arrastamos as tralhas todas até o local
julgado como o mais adequado para a captura dos peixes. Armamos a
barraca, preparamos o fogo, aprontamos nossas varas com as melhores iscas e as
arremessamos na direção da loca dos peixes que vagavam naqueles mares. Fincamos
as varas na areia e as deixamos em regime de espera. Enquanto esperávamos,
ficamos sorvendo goles generosos de San Rafael, tirando gosto com laranja, pois
era tudo o que dispúnhamos naquela hora. O Dim preparou a cozinha, cortando
temperos e deixando-os prontinhos para a peixada da noite. E tome San Rafael e
laranja. A noite caiu rapidamente e não tirávamos os olhos de nossas varas.
Aqui e ali puxávamos a linha para a substituição da iscas. Muitas vezes elas
retornavam intactas. Nada de peixe. Lá pelas oito da noite apenas dois
bagrinhos haviam sido pegos. E foram relegados e atirados de lado, como cabia
àquele time de pescadores profissionais. Duas garrafas de San Rafael já tinham
descido pelas nossas goelas. Nove da noite e nada de nadica. Nossos estômagos
já roncavam. O San Rafael já amargava na boca. Dez da noite a fome já
perturbava. Nem as laranjas a saciavam. Nenhum peixe de respeito para a ansiada
peixada. Comecei a me preocupar quando vi o Dim com a lanterna à procura dos
bagrinhos que haviam sido desprezados e atirados à areia. Lá pelas onze horas,
finalmente capitulamos, completamente embriagados de tanto San Rafael com
laranja. E a fome no mundo. Fizemos a última troca de iscas, arremessamos as linhas
e caímos trôpegos no fundo da barraca. Algumas horas depois, quando já ia alta
a madrugada, fui despertado aos solavancos pelo desesperado Dim: “- Acorda nêgo
desgraçado. Tem peixe na sua linha.” Ele levantara para urinar, foi conferir as
varas e vira que a minha estava entortada, inclinada pelo arrasto de um peixe
enorme. Saltei da barraca e corri até a vara que já quase tocava a areia.
Recolhi a linha e dei um puxão para conferir a fisgada. Pude então sentir o
peso do animal escamado que se prendera ao meu anzol. Não sei quanto tempo ele
estava ali puxando, mas ainda estava com inteiro vigor. O Dim e o Betão
postaram-se ao meu lado e começaram com as instruções para que eu não perdesse
o nosso jantar: “- puxe o peixe com calma, nêgo safado. Dê linha para ele”. E
eu ali tenso, concentrado, tomando todas as precauções para conseguir retirar o
peixão da água. Num dado instante, o peixe correu paralelamente à praia, em
busca do refugio de uma rocha que se projetava na linha da arrebentação. “-
acompanha o peixe, negão fio de uma égua, não vá perder o nosso jantar”. A
situação se complicou quando o peixe se protegeu na pedra, impedindo que eu o
arrastasse até a areia. O Betão e o Dim correram para a pedra, munidos com suas
lanternas, iluminando a água, na esperança de enxergar o peixe. Faltava muito
pouco para o sucesso da captura. Num último esforço supremo o peixe deu um
puxão e se libertou do anzol. Imediatamente senti a linha ceder e afrouxar. O
Dim e o Betão continuavam a iluminar a pedra, à procura do peixão. Fiquei ali
alguns segundos, simulando ainda estar lutando com o peixe e pensando no que
faria, quando eles percebessem a perda daquela presa formidável. De repente,
sem qualquer aviso, larguei a vara na areia e corri desesperadamente na direção
da duna, para me livrar da provável reação de meus companheiros. “- Nêgo fila
da puta, corno, nojento, incompetente, tu perdeu o nosso jantar”. Eles
vociferavam impropérios de toda ordem, enquanto eu me refugiava na escuridão da
noite. Só retornei ao acampamento, algum tempo depois, quando senti que eles já
haviam se conformado com aquela perda terrível. Recolhi a minha linha e
constamos que o anzol estava reto, de tanto esforço do peixe para se soltar.
Deve ter ficado muito tempo tentando se libertar, enquanto dormíamos e
conseguiu desentortar o anzol. O resto da noite foi de fome e frio, sem nenhum
peixe fisgado e recolhido. No dia seguinte, retornamos ao Caça e Pesca, lá
pelas dez da manhã, hora que havíamos combinado com o barqueiro. Matamos nossa
fome na lanchonete do clube. Novamente a Fátima foi culpada do nosso
infortúnio. Senti que novas pescarias com eles seriam difíceis. E, certamente,
nenhum de nós ousou tomar um só gole daquele desgraçado San Rafael, nos dez
anos que se seguiram ao evento.






















